Boneca

Costumo sempre comparar meus sentimentos à figura de mulheres. Tenho a tendência de representá-los como “ela”. Porém, nesta fria madrugada de insônia, o assunto é uma “ela” em especial.

Era como uma boneca de olhos brilhantes, trajando um vestido adornado, com o olhar fixo no nada. O nada, é claro, representa a liberdade vista por fora da janela. É uma comparação rude, grosseira, mas é o que pareceu.

Sendo boneca, todos os estados são aplicáveis. A palidez, o olhar morto e a esperança no fundo daquela alma.

Uma mulher especial, sem dúvida, mas a sentia distante. Interpunha-se um abismo entre nós – inalcançável boneca.

Vivi bastante tempo vendo o mundo como o apogeu da imundície humana. Como o ápice da vertiginosa decadência. Pensava que um lugar daqueles era apropriado para algo como eu. Voltava para casa encostado na janela do ônibus desejando entender.

Simplesmente entender o porquê.

Deste contexto, ela emergiu.

Era um pedaço do mundo.

Não era perfeita – nem procurava ser, também.

Se sentia errada, num lugar ainda mais errado – e entendia isso. Algo que por muito tempo almejei.

Tinha consciência da sujeira ao redor, conhecia suas nuances. Mantinha um sorriso pela ironia – por conhecer  e aceitar que talvez o universo seja mesmo muito maior que nós.

Reconhecia a pequenez.

Não tentava agradar.

E, por isso, me agradava.

Penso que ela merece mais de mim do que a mera observação. Por isso, se algum dia leres isto, dedico-lhe, minha querida boneca, minha preciosa conquista – o entendimento.

Saiba que sempre a observarei.

Mesmo de fora das vidraças.

Você jamais estará sozinha.

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3 comentários sobre “Boneca

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