Embriaguez

Os ébrios cantam num bar. Esta é uma noite fria num lugar quente. Hoje regresso à realidade, voltando de um mundo de fantasias mil.

Retorno para os sete pecados capitais. Observo aqueles rostos embriagados cantando sobre amores – como se a paixão fosse o eixo primordial da civilização. Caminho por ali imaginando que será de mim em hora tão negra. O brilho cálido da lua toca nossos rostos rosados.

Sou como eles.

Estremeço  ao sentir o cheiro do álcool. O nó que se forma na minha garganta é tão poderoso quanto o da forca do mártir que morreu por uns poucos que acreditavam que poderia e deveria ter sido um mundo mais justo.

Mas não é. O mundo não é o que escolhemos que seja. Suas nuances seguem um propósito indecifrável. A língua em que fala é incompreensível.

Talvez o mundo seja o bar, numa visão geral. Decadente, malvisto e por vezes asqueroso. Mas com seus contrapesos positivos, também – as bebidas inebriantes, os tira-gostos que distraem, e, claro,as companhias. As companhias são o que há de melhor naquela imundície bêbada. São sorrisos que consolam e choros que alegram.

O letreiro do bar avisa que não se pode viver a plenitude da realidade aqui. Neste lugar vivemos a fantasia e celebramos. Brindamos à fuga. Estamos felizes assim.

Mas é hora de voltar à realidade. Sair do bar e andar na noite negra de volta à minha casa. Encarar a dor. Pago a conta. Dou as costas para os que cantam sobre amores imaginários.

Começo a andar. A admitir e a aceitar. Então, corro.

Atrás de mim, os ébrios cantam num bar…

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