Estante

Estou com sono. Não posso dormir, e estou com sono. Tal pensamento me tortura enquanto levo à boca a xícara que por mim morre de amores.  Provo o doce do líquido enquanto vislumbro a minha estante. É curioso como, no início, o chá é doce quando entra na boca, e logo depois se torna amargo. Exatamente como as pessoas são. É realmente muito curioso.

Minha estante me fita, como que tentando ler meus pensamentos sonâmbulos. A luz dos troféus imaginários de realizações pessoais me ofusca. Quase não percebo a coleção logo abaixo deles.

Tenho, equiparando-se aos meus troféus inventados de vitórias, uma respeitável coleção de decepções. Estão lá, empoeiradas, e, para o meu próprio bem,  abandonadas. Mas nunca esquecidas.

A expressão sonolenta daquela parte da estante reflete a minha. Extremamente obcecada. Chamando-me. O chá desce pela garganta aquecendo levemente o meu corpo. Noite fria, esta.

Devagar, me levanto.  Sento de frente para a estante. A xícara ficou para trás e o doce já se transforma em amargura. Os incontáveis troféus da minha coleção, como também outros artigos da minha coleção que minuciosamente prezo por, me circundam e envolvem.

As vitórias e derrotas todas pelejam. Bradam por mais. A coleção de alegrias oferece seu carinho enquanto a coleção de memórias permanece muda.

Todos esses termos gritam, praguejam, esperneiam.

Mas nunca se alegram.

Talvez este seja o meu maior erro.

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